Sebastião Salgado no Japão - Sebastião Salgado in Japan

By Marcio Saiki - outubro 28, 2009


Esta história começa muito antes do sábado passado, quando soube que este ano haveria uma exposição do fotógrafo Sebastião Salgado no Japão ficava imaginando quão bom seria poder ter o privilégio de dar uma olhada nas suas maravilhosas fotografias, contudo meu horário de aulas na escola indicava que o final do ano seria muito corrido e cada vez eu me distanciava desta possibilidade.

Terça-feira (20 de outubro de 2009) - Acordei e estava procurando na internet um bom livro de fotografias quando surgiu na minha tela o link para a exposição ¨Africa¨ em Tokyo. Pâmela e Norma já haviam me avisado da data e a Norma ainda chegou a perguntar se eu realmente não iria; eu ainda negava a possibilidade.
Quarta-feira (21 de outubro de 2009) - Liguei para o Ricardo Yamamoto para uma conversa sobre um motivo qualquer, um subterfúgio, e obviamente ele falou sobre a exposição - a vontade começou a voltar - logo depois foi o Alex Santos que me manda um SMS dizendo que estava voltando de Tokyo depois de uma entrevista e eu aqui ainda negando qualquer possibilidade, pois no sábado eu tinha aulas importantes da turma da manhã de sábado e de uma turma que faz o curso VIP e que teríamos uma aula de estúdio naquele dia numa espécie de conjunção astral do calendário deles, do meu e da modelo que eles contactaram.
A noite comentei com a Marie e esta nem titubeou em dizer que eu deveria ir, foi o que eu precisava para começar a pensar realmente numa viagem. O ideal seria ir na sexta ou antes, ficar um dia em Tokyo, conhecer o local pois eu não sabia onde ficava o Museu Metropolitano de Tokyo, e chegar bem cedo no sábado. Ainda tive tempo para falar com o Ricson, ex-aluno que estava arrumando as malas para ir para o Brasil neste dia 27. Ric, no seu entusiasmo costumeiro me disse ao telefone: ¨Cara, vamos?! Eu vou. vamos?¨. Mas tenho certeza que ele só iria se eu fosse também.
Quinta-feira (22 de outubro de 2009) - Meti a cabeça num trabalho e enquanto o trabalho passeava na minha frente a cabeça ficava pensando numa forma de ir a Tokyo. Ao mesmo tempo, os compromissos marcados me desanimavam a sequer pensar nesta possibilidade, já pensou em ter que ligar a cada um dos alunos visto que as secretárias da escola estavam deveras ocupadas com a formatura que aconteceria no domingo.
Putz, a formatura! No domingo haveria a formatura (que falarei depois) e já haviam me avisado que pelo número de confirmações, os alunos de fotografia seriam a maioria. Naõ poderia sequer pensar na hipótese de faltar.
Sexta-feira (23 de outubro de 2009) - Acordei e liguei para a Pâmela: ¨Bom dia, como estão os preparativos para a formatura? - Pâmela, gostaria de saber se há a possibilidade de eu conseguir uma folga amanhã e se houver como fazer?¨. Ela logo me disse: ¨Claro que há, só temos que avisar os alunos ou melhor perguntar para eles se há algum problema, se todos concordarem pode fazer o que você quiser¨.


Comecei então a Maratona, liguei para vários alunos e o pessoal da secretaria ligou para outros, resultado final - me liberaram e muitos alunos me incentivaram além de inaltecerem que é muito bom ver um professor assim, entusiasmado com a possibilidade de aprender mais.
Mas isto já eram 15 hrs da tarde, não daria mais tempo para reservar um ônibus para a viagem e talvez teria que ir de shinkansen o que aumentaria muito o custo da viagem. Mas faltava ligar para o Ricson. Neste momento eu ligo o computador e tem uma mensagem da Miyuki perguntando de um tal workshop em Mie-ken; na hora não me veio outra resposta a não ser que seria muito melhor ir até a exposição em Tokyo do que qualquer outro curso de um rapaz que se diz ¨fotógrafo¨.
Ela me explicou que não era pra ela e eu pedi para que ela me ligasse. ¨Miyuki, vamos?¨, perguntei - ¨Vamos, saio do trabalho às 2 da madrugada, pego meu carro e vamos direto¨, ela me respondeu.
Havia um certo risco nesta estratégia, qualquer coisa acontecer durante a viagem, porém estávamos todos entusiamadíssimos e com toda certeza chegaríamos nem que fosse de carona.
Fomo eu, Marie, Ricson, Carlos e Miyuki. Chegamos bem cedo, às 7 horas da manhã já havia fila, postei-me como décimo quinto da fila.
Durante a viagem não dormimos, ficamos discutindo política, religião, economia etc... Mas o cansaço nem perto passava. Entramos no museu às 10 e fomos a livraria no andar inferior a exposição. Há muito tempo já tinha decidido adquirir o livro Workers (Trabalhadores), mas ao folhear Africa não pude resistir e acabei comprando junto com Essays (Ensaios). saímos da livraria e por culpa da Marie que estava procurando filme P&B para sua câmera voltamos para dentro. Não achamos e na saída eu estava praticamente andando de costas e conversando (ou melhor, ouvindo a Marie) quando um senhor ao meu lado estava de cabeça baixa e creio ao ouvir nossa conversa, levanta a cabeça. Não era nada menos que o próprio Sebastião Salgado, com aqueles olhos azuis profundos, com o rosto demostrando uma certa inquietude ou indagação que por uma fração de segundo cruzou o meu olhar e eu hipnotizado pelo momento desviei o olhar. Eu gesticulava com a cabeça para a Marie e o Ricson que não paravam de falar e acabamos deixando a oportunidade passar.
Bom, decidimos entrar na exposição. Miyuki e Carlos ficavam numa confusão de um procurar o outro, hora um subindo pela escada, hora outro descendo pelo elevador e nisto foram uns 20 minutos de espera.
A exposição é nada menos que imperdível. Também imperdível foi a oportunidade de durante o percuso dela encontrar novamente com Salgado e sua esposa com quem conversei algumas palavras. Pessoas atenciosíssimas. Conseguimos todos autógrafos nos livros. O que estranhei é que ninguém mais pediu para falar com o Mestre, mas aí também compreendo, ficar frente a frente com ele leva um tempo para conseguir que qualquer palavra saia. Da minha boca saiu um ¨Muito Obrigado por tudo¨. Acho que queria dizer muito mais e espero que ele tenha entendido que este muito obrigado era que eu queria dizer que o trabalho dele é fantástico, que atravessaria o Japão inteiro para ver, que não tenho palavras para descrever a exposição, que não tenho palavras para me comunicar mesmo!
Depois de ver a exposição nos encontramos com o Ricardo que estava lá para a Palestra (sim nós também fomos a palestra do S.Salgado) que aconteceria a tarde. Fomo juntos mas ficamos em lugares diferentes pois imprensa é imprensa e leitor é leitor. A palestra foi em francês com tradução em japonês, conclusão: Miyuki e Carlos dormiram o tempo todo, Ricson e eu brigamos feio com o Sono e graças a Marie consegui entender um pouco mais do que o meu francês de croissant permite.
Foi uma hora e meia de incrível dissertação sobre seu trabalho e principalmente sobre o Brasil. No incío ele disse estar muito feliz por estar expondo em Tokyo e de ter encontrado brasileiros na exposição. Falou sobre os nikkeys, sobre como Japão e África não são tão diferentes para nós brasileiros que aceitamos imigrantes de ambos os lugares. Falou um monte de coisa que faz um bom brasileiro ter orgulho deste senhor que pode ser considerado cidadão do mundo.


Da exposição.
Vale a pena, vale muito a pena. A disposição das obras faz você passear pelo lindo trabalho do olhar do mestre da fotografia durante seus 30 anos de fotografia daquele continente. Algumas obras são mais marcantes que outras, mas no geral a sensibilidade vem a tona em todas elas. Sabe aquele sentimento de horror ao ver uma imagem tão forte? Ver a exposição Africa de Sebastião Salgado vai muito além disto, vai além desta superficial visão do que é Sebastião Salgado. Os olhares são ricos, as texturas, paisagens e imagens de horror, esperança e amor misturam-se a todo momento. Para eu explicar melhor eu devo apenas lhes informar o endereço do Tokyo Metropolitan Museum e pedir que vejam vocês mesmos.

  • Share:

You Might Also Like

7 comentários